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"Fui à floresta viver de livre vontade, para sugar o tutano da vida. Aniquilar tudo o que não era vida. Para, quando morrer, não descobrir que não vivi". (Henry David Thoreau)
Enquanto que em países de outras latitudes as pessoas correm para os supermercados para garantir bens de primeira necessidade, no caso de ficarem barricadas em casa devido às frequentes intempéries, em Portugal corre-se para os supermercados à menor suspeita de descontos mirabolantes. A gula, saciada à estalada, pois é urgente açambarcar e atolar a casa com qualquer coisa dando razão ao ditado: "não há fome que não dê em fartura". O requinte de malvadez em escolher o 1º de Maio para oferecer um prato de lentilhas, para dividir a população e os funcionários, abusando das suas fraquezas. Pingos de sofreguidão, de egoísmo, de um povo estranho que pena o ano inteiro mas que de repente desenrasca 100 euros. Por este andar, preparem-se, ainda havemos de os ver a devorarem prateleiras de supermercados em noite de consoada!
Não concordo nada que a Associação 25 de Abril se tenha demarcado das comemorações oficiais do 38º aniversário da "Revolução dos Cravos", a que se juntam em solidariedade Mário Soares e Manuel Alegre. Compreendo o desalento que grassa na sociedade e os constantes ataques que são feitos aos valores conquistados em 1974, mas a "Abrilada" será sempre para mim a data mais importante do país, e hoje, mais do que nunca, deve ser lembrada. Genuíno, de cravo na lapela, sem os activistas da moda e os infiltrados de ocasião, de nostalgia e alegria, o 25 de Abril permanecerá intocável, à prova de exterminadores de feriados e de saudosistas "marcelo-salazaristas".
Penso que o ciclo de Jorge Jesus no Benfica acabou, se bem que a letargia dos seus dirigentes não lhes permita confessar o óbvio. Três épocas em que o rendimento da equipa oscilou entre o bom e o deplorável, onde nem todos os erros de arbitragem que levaram outros aos títulos podem justificar os fracassos, principalmente em jogos decisivos. Cultive-se a exigência, não é um qualquer mastigador de chicletes que pode fazer do Benfica a sua coutada, pavoneando a teimosia e a boçalidade. Corte-se radicalmente com o sistema que alimenta esta coisa a que chamam futebol português, que suga o Benfica e incha à custa deste, mas que nas derrotas goza descaradamente e cospe no prato que indirectamente lhe dá de comer.
Em Santiago de Cuba, um corajoso cidadão, aproveitando o silêncio da missa rezada por Bento XVI, gritou bem alto "abaixo o comunismo" e "abaixo a ditadura", sendo imediatamente manietado pelos fantoches de serviço do regime castrista e castrador. Os lacaios do partido silenciam a população, controlando as formas de comunicação com o exterior da ilha, entre reclusões e "trabalhos reeducativos" aos dissidentes políticos. Não paro de pensar no que acontecerá aquele bravo, aquela voz que ignora a cegueira partidária e a ideologia que sustenta uma ditadura. Como é possível usar uma t-shirt dum carrasco transformado em revolucionário e achar que isso é sinónimo de liberdade?
O recente Congresso do PSD, no Pavilhão Atlântico, acabou por ser uma simples fogueira das vaidades. No desfile de pindéricos com lantejoulas alaranjadas, notou-se a presença de alguns "notáveis": Santana Lopes, o homem das mil vidas; Jardim, gastador inveterado transformado milagrosamente em Tio Patinhas; Marcelo, mirando Belém; Menezes, cobiçando a Câmara do Porto e José Sócrates - não que alguma vez estivesse lá estado, mas pela quantidade de vezes que é evocado para interpretar o papel de bode expiatório e esconder a incompetência daqueles que sobrecarregam o "lombo dos portugueses". A coberto do patriotismo bolorento, a nostalgia dos tempos da União Nacional fez-se sentir quando os congressistas votaram consoante a vontade do presidente do partido na mesma coisa por duas vezes! Inédito!
À tarde, no Marquês de Pombal, em Lisboa, um concerto de Stravinsky para celebrar a chegada da Primavera, à noite, no Estádio da Luz, depois da derrota do FCP para a Taça da Liga, o escarcéu, o habitual Sermão de Santo António aos Peixes proferido pelo padre do costume, por aquele que até agora tinha dito que "os árbitros têm sido uns heróis". Ele bem tenta curar a cegueira dos seus adeptos, ele bem tenta desvalorizar esta competição porque nunca a ganhou, ele bem sabe que a sua equipa e o seu treinador são medianos, ele bem sabe que sem o erro de arbitragem que lhe permitiu ganhar na Luz, para o campeonato, já tinha sido apeado da corrida ao título. Porque dizem por aí que o Estádio da Luz é um salão de festas para outros clubes, talvez por isso a UEFA o tenha escolhido para ser palco da final da Liga dos Campeões em 2014, agora que houve desbloqueio arbitral e uma vitória honesta e justa.
Sim, foi graças a ti e a outros valorosos fundistas que aprendi a gostar de atletismo. Na década de 80, imaginei-me a correr, a eclipsar recordes nacionais, a receber medalhas e a ser elevado ao Olimpo. Saudades desses tempos nostálgicos, dessa tua fisionomia tão caracteristicamente portuguesa, da tua simplicidade, dessa tua raça nortenha que faz cerrar os dentes. Podes ter corrido a tua última prova, mas para os benfiquistas com quem privaste durante 10 anos e para os amantes da modalidade permanecerás eterno. Obrigado António Leitão.
Foto: LPFP
Não tenho dúvidas de que o alargamento proposto pelo Presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, isentando os clubes da despromoção na presente época, põe em causa a verdade desportiva, mas fico espantado com a inocência de alguns que só agora descobriram que apenas seja isto que vicia o futebol português. Porque não me esqueço do tempo em que a maior associação distrital de futebol mandava na arbitragem, em que o Presidente da Liga acumulava o cargo com o de presidente de futebol da terra e sentava-se no banco, ao lado do treinador, como visitante. Sou do tempo em que o anfitrião jogava em casa emprestada devido a um duvidoso direito de transmissão televisiva que ainda hoje perdura. Vivo no tempo em que os "clubes grandes" emprestam jogadores aos "clubes pequenos", mas esses atletas lesionam-se misteriosamente na véspera de se defrontarem. Por isso, este "grito do Ipiranga", esta emancipação dos pequenos clubes, é uma artimanha semelhante a outras já usadas e que corroem as fundações do futebol português.